Livro: Ganbatte, Memórias de um Filho

Nesse ano de 2019, a Gioia Nostra participou de muitos eventos e foi em um deles, o Lechaim Festas, onde conhecemos a dona dessa história repleta de memórias.

 

Foi no dia 31 de março, em um domingo ensolarado que o evento aconteceu, mas antes, preciso contar como fomos convidadas para estar nesse dia, que até uma semana antes não estava na nossa programação! Coisas do destino…

 

No domingo anterior, participamos de um outro evento para noivas no Hotel Grand Mercure em São Paulo, organizado pelas meninas do Spa das Noivas. Estávamos expondo os nossos livros quando Branca se aproximou. Contamos a ela um pouco sobre a Gioia Nostra e prontamente ela se encantou com o trabalho, nos dizendo que chamaria a sua irmã para que apresentássemos para ela também.

 

Deborah apareceu algum tempo depois, inquieta e gentil. Contamos algumas das histórias sobre os nossos livros, conversamos bastante e ao final, ela nos disse que estava organizando um evento voltado para a comunidade judaica e nos convidou para participar. Detalhe: todos os fornecedores do evento já estavam fechados há meses, mas ela insistiu dizendo que a Gioia Nostra era algo diferente, que ela amou nosso propósito de transformar memórias em livros.

 

A semana que se seguiu foi agitada, pois não poderíamos perder essa oportunidade de ouro! Foi um corre corre para assinar o contrato, para enviar nosso material promocional (todos os convidados do Lechaim receberam uma sacola com um cartão nosso). Quem já recebeu sabe que os nossos cartões de visita vêm sempre com uma pedrinha brilhante. O que talvez vocês não saibam é que colamos uma a uma, algo que demanda bastante tempo e paciência, mas todo mundo ama!

 

Os dias voaram e naquele domingo do dia 31 nos dirigimos até o Iate Clube de Santos, localizado no bairro de Higienópolis, em São Paulo.

 

Ao passarmos pelos suntuosos portões, encontramos o palacete construído em 1884 pela família Prado, uma das mais tradicionais da época. O local é cercado por um imenso jardim e vários espelhos d’água que são residência de um casal de cisnes negros. Deslumbrante!

 

Lembro no tempo da faculdade de publicidade no Mackenzie, que fica ali do lado, que sempre me perguntava o que existiria além daqueles portões. A vida realiza nossos desejos de uma maneira inesperada, no tempo dela, nesse caso, 20 anos depois!

 

Apesar da correria com os últimos detalhes do evento, Deborah e Juliana, sua sócia, nos receberam com todo o carinho. O local, que já é lindo, ficou ainda mais incrível com a decoração impecável que elas criaram.

 

Às 11h o evento começou. Muitas pessoas passaram pela nossa mesa e recebemos elogios constantes. Geralmente é o primeiro contato que a pessoa tem com a ideia de que é possível e acessível ter uma história pessoal escrita em um livro personalizado. Toda vez que alguém se aproxima do nosso espaço, contamos a história de algum dos nossos livros, explicamos como funciona e respondemos às perguntas que podem surgir.

 

No meio da tarde, notei que uma senhora de olhos puxadinhos passou olhando com curiosidade, mas não se aproximou, ela rodeou por alguns momentos e eu, mesmo sendo tímida, tomei coragem e fui até ela a convidando para conhecer nosso trabalho de resgate de memórias.

 

Percebi, que mesmo dentro da sua rigidez oriental, ela ficou entusiasmada. Me contou que o seu pai tinha escrito dois livros sobre os pais dele e que ela gostaria muito de compilar essas histórias para presentear os irmãos. Também me disse que tinha ido até o Lechaim para prestigiar a amiga Branca (irmã da Deborah). Nossa sintonia foi instantânea, tão perceptível que ao final do encontro nos abraçamos, como se nos conhecêssemos há anos! Entreguei o cartão da Gioia Nostra e pedi para que ela nos procurasse depois.

 

Após um mês, não tivemos contato com a Hiromi, mas senti em meu coração que deveria procurá-la

 

Decidida, falei com as meninas da Lechaim e a Branca nos passou o contato dela! Mandei um Whatsapp, um pouco receosa de estar sendo invasiva, mas a resposta não poderia ter sido mais positiva! Marcamos um café na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, na Avenida Paulista.

 

Nesse dia, ela me levou os livrinhos que o pai escreveu enrolados em um lenço cinza de bolinhas brancas que pertenceu à sua mãe. Conversamos bastante e ela me contou um pouco mais sobre a sua família. Iniciamos o projeto dois dias depois desse encontro.

 

Chegando em casa, li os dois livros, um que contava a história do avô, Massamoto, e outro que contava a história da avó, Tosse. Ambos vieram ao Brasil no começo do século passado para trabalharem nas lavouras de café. Uma viagem dura e um recomeço difícil em uma terra culturalmente oposta ao Japão. Eles foram pessoas extremamente fortes e destemidas, corajosos no extremo do significado palavra.

 

Memórias: casamento de Tosse e Massamoto / Tosse de volta ao Japão / Como eram os livrinhos

 

Conversamos com a Hiromi que precisaríamos de um título para o livro, algo que representasse essa coragem e força. Pensamos em algumas sugestões, mas ela mesma nos presenteou com um termo em japonês: GANBATTE, uma expressão muito utilizada que significa –  “Força, coragem, faça o seu melhor!” Perfeito!

 

Fizemos para ela três opções de capa para o livro e ela escolheu a que eu mais tinha gostado, uma leve textura de carpas no fundo, um círculo vermelho representando a bandeira do Japão, o sol nascente, e um grou (ave que simboliza sorte, paz, saúde, longevidade, fortuna, felicidade e fidelidade) voando, além de algumas flores de cerejeira colocadas estrategicamente em dourado.

 

Apesar de, dentro do meu processo de criação, eu ter idealizado e combinado os elementos e cores, confesso que quando a vi pronta eu me emocionei de verdade. A sensação foi como se eu fosse apenas um instrumento e tivesse sido guiada pelos antepassados da Hiromi, com eles me “sussurrando” exatamente o que fazer.

 

Imagem da capa escolhida por Hiromi

 

No passo seguinte, começamos a organizar o livro em capítulos. Acrescentamos um texto sobre a imigração japonesa no Brasil para contextualizar e mapas da origem de Massamoto e Tosse no Japão e por onde passaram no Brasil. O aprendizado que se tem trabalhando em um projeto como esse é algo imensurável, nos sentimos privilegiados de termos acesso a tantas histórias incríveis, com tamanha riqueza de detalhes.

 

Hiromi foi uma cliente excepcional, sempre nos atendendo com prontidão quando tínhamos alguma dúvida, ou mandávamos os pdfs para ela revisar. Assim, as memórias de Ganbatte foram ganhando forma com textos e fotos.

 

Ela quis colocar no livro alguns Haikais (poemas japoneses) que escreveu, e nos deu a ideia de criar um vocabulário da família, com termos em japonês para que os descendentes continuem utilizando. Nunca vou esquecer o que é “Shinamono”, algo que a avó dela dizia de um “artigo de qualidade”, “coisa boa”. Espero que a Gioia Nostra seja sempre “Shinamono”.

 

O último pdf aprovado e revisado foi para a gráfica e depois para o atelier para ser encadernado. Quase 20 dias depois ficou pronto e eu mesma fui buscar.

 

Combinamos a entrega em uma quarta-feira na hora do almoço. Eu sempre fico ansiosa, pois é a validação de meses de trabalho, o melhor momento de todos.

 

O Haikai que ganhamos de presente da Hiromi / Eu (Giulliana) e Hiromi com Ganbatte.

 

Hiromi chegou e eu fiz um suspense, a Nicolle, que não pode estar presente pessoalmente, fez questão de estar ao vivo pelo Facetime. Quando eu passei a caixa para as mãos dela a emoção tomou conta. Ela nos disse palavras tão bonitas de gratidão, que vamos guardar na nossas memórias para sempre. Tiramos algumas fotos para registrar e dias depois ela ainda nos enviou um depoimento por escrito junto com um Haikai:

“Nada é por acaso.

Considero uma benção o encontro com a Gioia Nostra!

Entre o meu encantamento pelas belas produções em exposição e a oportunidade de concretizar o livro em homenagem ao meu pai, encontrei passos muito bem organizados pelas profissionais Giulliana e Nicolle que com brilhante competência, sensibilidade e respeito pela história da minha família me conduziram num processo de resgate transformador na construção da preciosa herança de memórias registradas que eternizam no belíssimo livro “GANBATTE – Memórias de um filho”.

Com muita gratidão por compartilharem a vocação da Gioia Nostra de lapidar histórias reunindo a estética do belo à vida real, essencial.

Hiromi Kano, Uchida

Às vésperas da primavera de 2019 “

 

Como ela disse: “Nada é por acaso” e eu acrescento “o Universo conspira a favor dos encontros que nos trazem amor, aprendizado e novas memórias para vida.” Obrigada, Hiromi.