Pílula de memória: História do Vô Freca

História de vida Vô Freca
Sem sombra de dúvidas ganhador do título “Melhor avô do mundo” dado unanimemente pelos seus cinco netos, sua história de vida daria um livro.

Vô Freca era a serenidade com pele morena, bigodes pacientes e careca zen.

Nunca o ouvi levantar a voz para ninguém, nem para os meus primos que eram bem travessos.

Vestido diariamente com roupas esportivas pronto para qualquer aventura, tinha um nariz que amassava e boca característica dos Bolognanis. Seus olhos escuros transpareciam uma alma repleta de bondade.

Era um verdadeiro amante da natureza. Falava em ir para a praia ele era o primeiro a se jogar no mar, que amava de paixão. Nas noites de céu aberto, gostava de olhar as estrelas através do seu binóculo mágico e nos contar suas histórias.

Na juventude, por volta da década de 30, gostava muito de esportes, principalmente os mais radicais. Paraquedismo, esgrima, saltos ornamentais, a lista era grande e as histórias muitas. Praticava canoagem e chegou a nadar no rio Tietê, algo impensável nos dias de hoje.

 

História de vida juventude Vô Freca

 

Até seus 70 anos, andou de bicicleta no Parque do Ibirapuera com uma turma de amigos da terceira idade.

Outro dia passei pelo Parque, fazia um tempo que não atravessava aqueles memoráveis portões verdes. Entrei caminhando meio sem destino até chegar à Praça do Leão, que tem sua própria história. Até hoje não tem como eu colocar os olhos na estátua localizada no meio da praça e não lembrar do meu avô me pegando no colo e me colocar montada no “Leão Rugindo”, que na época, devido ao meu pequeno tamanho, era imenso e imponente. Naquele dia, por um momento, o tempo parou, o vento trouxe o cheiro das folhas verdes e frescas e eu voltei ao passado.

As boas lembranças e histórias me preencheram e o meu coração se encheu de amor. É ao vô Freca que eu devo uma boa parte da felicidade da minha infância.

Conviver com ele durante 14 anos foi um verdadeiro privilégio. Ele me ensinou muitas coisas como nadar, andar de bicicleta sem rodinha, sempre me incentivou a desenhar e a buscar soluções criativas para as questões da vida. Ele pensava sempre “fora da caixa” antes mesmo de esse termo existir. Com certeza a existência da Gioia Nostra é parte desse ensinamento “criativo-inovador”.

Nos fundos da sua casa, na Vila Mariana, tinha uma “oficina”, de onde saiam as mais malucas invenções e consertos. Era um mundo à parte, cheio de ferramentas, porcas, parafusos, martelos, isso tudo se misturava com gaiolas de passarinhos, vassouras e a máquina de lavar roupas. Lembro até hoje do cheiro desse quartinho, tão estranho quanto as coisas que tinham dentro dele.

No quintal havia um pé de romã. Quando o meu avô colhia as frutas maduras, comíamos até os dedos ficarem manchados de cor de rosa. Hoje compramos no mercado no final do ano para seguir a tradição, mas as romãs não têm mais o mesmo gosto porque o sabor especial não era o da fruta, mas sim o das mãos do meu avô colhendo e descascando para os netos os frutos que ele mesmo cultivou.

Aos domingos, a família se reunia para o almoço, sempre canelones com molho ao sugo comprados na Rotisseria Rio Grande, que existe até hoje.

Me lembro das conversas animadas entre os adultos durante a refeição e na sobremesa começava a brincadeira, o meu avô sempre pegava uma banana, cortava como se ela tivesse uma boca e a fazia mexer cantando uma musiquinha em italiano, com certeza algo que trouxe da própria infância.

Ao lado da minha avó Dirce, ele era obrigado a assistir a todos os programas do Silvio Santos e às novelas da Globo também. Para se distrair, ele sempre tinha um papel na mão e ficava fazendo caricaturas dos atores das novelas ou desenhando qualquer outra coisa até cochilar no sofá.

Todo final de ano ele fazia os diplomas da escolinha da Tia Silvia. Geralmente eu estava de férias, então ficava horas sentada no escritório assistindo ao meu avô escrever o nome dos formandos em letras góticas diploma por diploma, usando sempre uma caneta bico de pena, ia alternando entre uma tinta preta, uma dourada e outra em um tom de rosa avermelhado para dar o “tchãns”, eu achava o máximo.

O máximo eram as esculturas que ele fazia com gilette na ponta dos seus lápis. Me lembro de uma em especial, um monge com cabelo tigelinha que eu herdei e guardei na minha caixa de memórias.

 

Outra história vô Freca

 

Tem um ensinamento que eu nunca esqueço. Sempre fui chata para comer e muitas vezes teimava em deixar comida no prato. Ele chegava perto de mim com a maior calma do mundo e dizia com sua voz doce. “Hoje é apenas um grão, mas em 365 dias você poderia ter um prato de arroz para alguém que não tem o que comer”.

Vô Freca sempre foi uma pessoa de caráter irrevogável, um ser iluminado que veio para esse planeta para ensinar aqueles com quem conviveu a encontrarem paz no coração. Ele foi um exemplo como homem, marido, pai e avô. Uma pessoa apaixonada pela natureza e com uma vontade de viver imensa. Até hoje penso nele, buscando opiniões ou o que ele faria nas situações mais complicadas, porque sei que ele sempre fez o melhor que pode com tudo que a ele foi dado.

Os anos passaram e ainda hoje sinto a presença dele em alguns momentos importantes. Sei que de alguma forma ele faz parte de mim e de quem eu sou hoje, dos meus valores e do meu caráter. Acredito que cada pessoa que conviveu com o meu avô, principalmente os netos, carregam consigo, algum ensinamento, alguma frase ou lição de vida que, com certeza, irão passar para seus filhos. Assim, a lembrança dele continuará viva em cada vez mais corações.

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