Meu pai, como é grande o meu amor por você

Nesse mês de agosto, a Gioia Nostra convidou algumas pessoas para homenagearem seus pais, ou avós, contando para o nosso blog algumas “pílulas de memórias”.

 

Essa é a história de Samuel, contada através das memórias da sua filha do meio, Liliane.

 

Samuel e Liliane na infância / Liliane já adulta com o pai

Meu pai, Samuel dos Santos, nasceu em Sorocaba no dia 26 de abril de 1966.

 

Filho de uma família simples do interior, foi criado dentro de uma rígida doutrina religiosa. Na sua casa, por exemplo, não tinha televisão, eles não iam à praia e era obrigatório frequentar os cultos da congregação.

 

Ainda criança, na escola, conheceu José Luiz que virou seu amigo de uma vida inteira. Zé tinha uma irmã chamada Edna, quatro anos mais velha, ela era tão linda e simpática, que Samuel não teve como não se sentir atraído por aquela menina. Aos 13 anos, meu pai afirmou categoricamente que um dia se casaria com ela.

 

No entanto, Edna estava noiva, casou-se e teve um filho, Leandro, mas por diversos motivos e coisas da vida, o casamento não deu certo e meu pai, com 17 anos, conquistou o coração de Edna, minha mãe.

 

Foram morar juntos em 1984 e ele não teve dúvidas, assumiu a paternidade do meu irmão e o tratou com muito amor, apesar dos protestos da família da minha mãe, que o considerava jovem demais para assumir tantas responsabilidades.

 

Cinco anos depois eu vim ao mundo e em seguida meu “irmãozinho” caçula Luiz Otávio nasceu, para a alegria do meu pai, que adorava festas e a casa cheia.

 

Eu, como única filha mulher, devo admitir que fui muito mimada, não que eu fosse uma criança que quisesse tudo, porque o que eu recebia de amor e atenção, pra mim, já era suficiente, mas meu pai adorava me presentear, além de ser extremamente amoroso.

 

Durante muitos anos ele trabalhou como sapateiro no negócio da família e a minha mãe ganhava a vida como costureira. Pensando em ter mais estabilidade no futuro, prestaram juntos um concurso público. Foram aprovados e no mesmo dia começaram a trabalhar na penitenciária da cidade.

 

Foram 25 anos de serviços prestados, meu pai era querido até pelos detentos. Ele atuou como diretor na área que recrutava os presos para prestarem serviços internos. Dentro da penitenciária, era ele quem dava as oportunidades. Dizia que não gostava de olhar o prontuário do preso porque entendia que, por trás daquela papelada havia um ser humano, que não cabia a ele julgar. Nunca discriminou ninguém. Geralmente as pessoas que faziam parte das minorias, em quem ninguém acreditava, acabavam se revelando os melhores trabalhadores.

 

Quando estudávamos ele se sentava com a gente, mas não tinha paciência para explicar a mesma coisa muitas vezes. Ele achava que uma vez era o suficiente. Discutíamos, mas logo depois ficávamos de bem. Éramos muito parecidos, discordávamos apenas das diferenças, que eram poucas. Pensávamos igual, nos comunicando através do olhar.

 

Meu pai tinha apelidos, eu o chamava de ‘Gordines’, mas tinha alguns outros não tão carinhosos como ‘Zé Meningite’. Ganhou esse apelido de tantas vezes que ficou doente, teve: meningite, tuberculose, câncer, herpes zoster, quebrou as duas pernas em um acidente… aos 29 anos, um médico disse que ele não passaria dos 30, ele não deu ouvidos e continuou a viver intensamente.

 

Depois de passar por tudo isso, ele se tornou uma pessoa muito sábia. Dizia que: “um dia sem risadas é um dia perdido.” Acreditava que algum motivo para sorrir tinha que ter.

 

Ele era assim, um ‘chato legal’ que todo mundo gostava. Com um jeito cativante, espontâneo e sempre alegre. Adorava tirar sarro da cara de todo mundo.

 

Era tão acolhedor que todos o queriam em sua vida como figura paterna. Nos dias dos pais ele recebia presentes até de quem não eram seu filhos. Eu morria de ciúmes até dos meus amigos que viviam pedindo conselhos (amorosos, inclusive) para ele.

 

Cozinhava maravilhosamente bem, suas especialidades eram feijoada, palmito recheado, dobradinha e costela no bafo. Para ele, tudo era motivo de festa e comida, por isso a nossa casa parecia um terminal de ônibus, sempre lotada, com pessoas circulando a todo momento. Aliás, a casa foi um sonho conquistado, era a cara dele, com espaço gourmet e tudo mais, vivemos sete anos muito felizes lá. Para ele, era muito importante nos sentarmos todos juntos, como uma família, compartilhando as refeições.

 

Meu pai não era daquelas pessoas que ganham um presente e guardam para usar em uma ocasião especial. Se ganhava uma roupa, usava no mesmo dia, pois para ele, todos os dias eram especiais.

 

Ele só não se bastava. Aos sábados acordava cedo, geralmente por volta de 8h da manhã e começava a fazer barulho para acordar a família. Nossa, como era barulhento! Às 9h era a hora de nos levar na feira, onde ele cumprimentava e conversava com todo mundo, apreciando o seu pastel matinal. Ele era conhecido no bairro e bastante querido por todos.

 

Luiz Otávio, Edna, Samuel, Liliane e Leandro

Depois de 38 anos de casados, em março desse ano, durante a pandemia ele fez um ‘baile’ para a minha mãe. Se arrumou todo, colocou até um blazer. Fez a minha mãe se arrumar também. Em casa montou uma mesa caprichada com frios e taças.

Durante o ‘baile’, cantaram diversas músicas no Videokê, só clássicos, incluindo uma muito especial do Roberto Carlos:

 

…”Me desespero a procurar
Alguma forma de lhe falar
Como é grande o meu amor por você

 

Nunca se esqueça, nem um segundo
Que eu tenho o amor maior do mundo

Como é grande o meu amor por você

Mas como é grande o meu amor por você”…

 

Tudo o que ele viveu e conheceu foi com a minha mãe. Eram muito companheiros.

Apesar de terem seus desentendimentos: “não aguento mais a sua mãe”, ele falava.

“Não aguento mais o seu pai, ela dizia, mas a verdade é que um não conseguia ficar longe do outro. Ele não ia nem ao mercado sozinho, viveram um amor real por quase quatro décadas.

 

Samuel, Liliane e Edna / O carinho entre pai e filho

Ele nunca nos deixou dormir brigados com ninguém, dizia que tínhamos que resolver as pendências antes do dia seguinte e sempre falar o que pensamos, porque não dá para saber o dia de amanhã.

 

O amanhã dele chegou logo, sem avisar. Veio através de um vírus que, definitivamente está levando essas pessoas que têm o ‘dom da alegria’. Tinha chegado a hora dele nos deixar, suas últimas palavras foram de gratidão: “como Deus é bom”. Acredito que ele se foi em paz.

 

Há três meses não vejo o seu sorriso, não sinto a sua energia contagiante, mas como ele mesmo dizia: “chorar não resolve o problema” ou “o mundo não para porque estamos sofrendo.”

 

Nós fomos privilegiados de, nessa vida, ter um pai tão presente que nos deixou muitos ensinamentos. Não sinto dor, porque eu sou extremamente grata, não tenho arrependimentos. Tem pessoas que vão conviver com seus pais até seus 70 anos, mas não vão viver um terço do que nós vivemos.

 

Entendo que agora é o momento de aplicar os seus ensinamentos e iniciar um novo ciclo sem ele, que foi outra lição que nos deixou:

 

“Temos que aprender a sermos felizes por nós mesmos. Que a gente nunca deposite a nossa felicidade em ninguém, mas que a nossa alegria faça os outros felizes.”

 

Pai, aonde quer que você esteja espero que esse texto tenha conseguido traduzir, pelo menos um pouco, em palavras como é (e sempre será) grande o meu amor por você.

 

Liliane Santos

 

 

Nós, da Gioia Nostra, desejamos que o nosso blog seja um espaço online para preservarmos memórias. Se você deseja compartilhar uma história com a gente, ou homenagear alguém muito importante, entre em contato. O serviço das “pílulas de memórias” é gratuito. Você conta a história através de uma entrevista, nós escrevemos e publicamos nesse espaço repleto de amor e nostalgia.