O melhor João que a vida me deu

Nesse mês de agosto, a Gioia Nostra convidou nossos leitores a homenagearem seus pais, ou nesse caso, avô, deixando em nosso blog algumas “pílulas de memórias”.

Essa é a história do Seu João contada através das memórias do seu neto, Leandro.

 

TRAJETÓRIA DE VIDA

 

Nascido e crescido no sul de Minas Gerais, ainda jovem, João conheceu Maria José, sua grande paixão, que se tornou a parceira de uma vida inteira.

 

Juntos, migraram para o norte do Paraná para que ele fosse trabalhar na roça. Lá, tiveram um filho a quem deram o nome de Zózimo, meu pai.

 

Quando o filho ainda era jovem, mudaram-se para o estado de São Paulo estabelecendo-se na cidade de São Bernardo do Campo, minha terra natal, em busca de uma vida melhor.

 

Na década de 60, a região do ABC estava começando a se desenvolver. Meu avô iniciou sua carreira trabalhando em uma pequena metalúrgica, localizada na cidade de São Caetano do Sul. Todos os dias ele saia do Bairro Assunção em São Bernardo e pedalava durante uma hora e meia até a metalúrgica. Eram três horas em cima da bicicleta diariamente, para vencer o terreno da época, mas hoje, esse percurso não demora mais de 20 minutos de carro.

 

Foi assim que, com muito esforço e dedicação, em uma batalha diária, meu avô conseguiu comprar um terreno e construir, tijolo por tijolo, a sua tão sonhada casa própria. O objetivo dele sempre foi ter o seu cantinho e nele estabelecer a sua base familiar, cuidando da minha avó e do seu filho. Para Seu João, como para a maioria das pessoas, algumas coisas deram certo e outras não, mas ele sempre persistiu.

 

Meu avô se esforçou muito para educar o meu pai. Acredito que, se não fosse pelo esforço dele, meu pai não seria o grande homem que é hoje e a nossa história, com certeza, seria diferente.

 

Quando meu pai se casou com a minha mãe, ele estava vivendo um momento difícil, em que estava desempregado. Seu João não poupou esforços para ajudar o filho a se recolocar profissionalmente. Meu pai conseguiu uma ótima oportunidade, foi trabalhar na Mercedes Benz, onde estabeleceu a sua carreira e ficou até a sua aposentadoria, reconstruindo a nossa vida.

 

Ouvi dizer que um dos momentos mais felizes da vida do meu avô foi a minha chegada ao mundo, fui seu primeiro neto e construímos muitas memórias juntos, algumas das quais eu gostaria de recordar nesse texto.

 

                                 Seu João comigo no colo / Meus avós e eu no meu aniversário

 

RITUAL DO SAMBA

 

Meus pais sempre trabalharam muito então, quando chegava da escola, eu almoçava e ficava com o meu irmão brincando no quintal. Em uma determinada hora, por volta das 16h, meu avô aparecia. Ele tinha um ritual sagrado, o ritual do café da tarde, em que preparava cuidadosamente o café, montava a mesa com bolachas de água e sal, manteiga e comia calmamente, em silêncio, na cozinha.

 

Em seguida, começávamos a conversar e, como não teve muita oportunidade de estudo, ele adorava nos perguntar coisas sobre a escola. Suas matérias preferidas eram história, geografia e matemática. Ele gostava muito de falar sobre companhias aéreas, pois era fanático por aviação.

 

Outro assunto bem recorrente era o futebol, mas sua paixão verdadeira era a música. Depois da conversa com os netos, ele se dirigia para uma área aberta que tinha em casa, pegava seu banquinho e o violão.

 

(Vou abrir um parêntese aqui: quando Seu João se aposentou, construiu uma oficina no fundo da casa para construir alguns objetos. Fez seu próprio banquinho e o suporte para o violão, tudo isso usando sucata. Lembro que ele sempre me levava para alguns terrenos perto de casa para recolher os materiais que poderia reutilizar. Vi ele criando muita coisa legal, ele gostava de trabalhar principalmente com madeira e metal, criava chaveiros com logotipos de montadoras como GM ou Volkswagen.)

 

Violão clássico, chorinho e sambas instrumentais eram seus estilos favoritos. Ali, banhado pelo sol da tarde ele arranhava algumas notas, alguns estudos que ele tinha desenvolvido com o seu professor.

 

Sua música favorita era um tango chamado Odeon, composto pelo músico brasileiro Ernesto Nazareth, escrita em homenagem ao Cine Odeon, localizado no Rio de Janeiro, onde Ernesto se apresentava. Seu João também era fã de moda sertaneja, principalmente da dupla Tião Carreiro e Pardinho. Gostava de ouvir Luiz Gonzaga, Roberto Carlos e o Trio Parada Dura.

 

Partitura da música favorita do meu avô. Fonte: https://ernestonazareth150anos.com.br

A simplicidade do momento e a paz transmitida pelo meu avô enquanto ele tocava ficará marcado para sempre na minha memória. Às vezes ele parava, brincava com a gente e esses momentos eram muito especiais.

 

Para quem leu essa história até aqui, fica um aprendizado: procure aproveitar os momentos mais simples com aqueles que te amam, pois são aqueles que mais fazem a diferença na vida.

 

A música foi um dos legados que ele deixou para o meu pai, que aprendeu a tocar violão com o mesmo professor. Quando meu avô partiu, ele herdou sua coleção de discos de vinil e fitas K7, acredito que tenha guardado o aparelho de som também.

 

A BRASÍLIA BRANCA

 

Outro momento que me marcou foi quando meu avô comprou uma Brasília branca 0 Km. Na época eu devia ter uns 4/5 anos e ele trabalhava na Volkswagen. Meu avô tinha um carinho enorme pelo carro e nos levava para todos os lados.

 

Lembro que foi ele quem deu a minha primeira bicicleta e ainda me ensinou a andar sem as rodinhas. Durante a semana, enquanto meu pai estava no trabalho, ele colocava a bicicleta no carro e levava eu e meu irmão até um parque no centro de São Bernardo, próximo à prefeitura da cidade, para treinarmos a minha nova habilidade.

 

Teve uma vez, em um dia chuvoso que ele precisou sair e nos colocou na Brasília, estava tudo tão molhado que, em um ponto do caminho, o carro aquaplanou e bateu em outro veículo. Eu, que sempre fui muito chorão, comecei a chorar copiosamente e meu avô me disse: “engole o choro, porque está tudo bem”.

 

Com sua tranquilidade costumeira, desceu do carro e resolveu a questão com o outro motorista. A Brasília foi para a oficina, onde ficou por uns 10 dias e voltou inteira para casa, para a alegria do meu avô.

 

MELANCIA, A FRUTA DE TODAS AS ESTAÇÕES

 

Quando íamos ao mercado, eu adorava acompanhar o Seu João no setor das frutas. Me recordo dele nos ensinando a escolher melancia. Ele pegava a fruta e pedia para que colocássemos o nosso ouvido bem perto e batia nela, não muito delicadamente, para percebermos se estava boa ou não através do som. Até hoje nós gostamos muito de melancia aqui em casa e a fruta acabou se tornando um símbolo que sempre me faz recordar do meu avô.

 

Seu João tinha um irmão que morava na cidade de Americana, no interior de São Paulo. No terreno havia uma pequena plantação de cana-de-açúcar, lembro que o meu avô adorava caldo de cana caiana. Quando íamos com ele para o interior, ele fazia questão de nos mostrar tudo o que aprendeu sobre a roça na sua juventude, inclusive como tirar mandioca da terra.

 

 

ENSINAR PELO EXEMPLO

 

Meu avô na juventude

O seu João sempre teve uma tranquilidade e paz para tratar com as pessoas, quando alguém precisava ele estava ali, disposto a dar uma mão. Meu avô ajudou muita gente sem querer nada em troca, eu acho que a paz interior que ele sentia em colaborar com todos, independentemente de quem fosse, já era suficiente.

 

Com certeza, ele foi uma das pessoas responsáveis por me formar como ser humano através dos seus exemplos. Era muito sério, correto, bondoso e justo.

 

Durante o nosso período de convivência, ele ajudou a complementar a educação que os meus pais nos deram. Ensinou o que era certo e errado, e o mais importante: como respeitar os outros.

 

Seu João partiu quando eu tinha 16 anos, mas acho que a maior lição de vida que ele me deixou foi: procurar ser uma pessoa melhor a cada dia e é isso que eu tento fazer desde então.

 

Com muito amor, gratidão e saudades, Leandro Vieiras

 

 

Nós, da Gioia Nostra, desejamos que o nosso blog seja um espaço online para preservarmos memórias. Se você deseja compartilhar uma história com a gente, ou homenagear alguém muito importante, entre em contato. O serviço das “pílulas de memórias” é gratuito. Você conta a história através de uma entrevista, nós escrevemos e publicamos nesse espaço repleto de amor e nostalgia.